Nas últimas semanas, a administração dos Estados Unidos anunciou oficialmente o início da segunda fase do plano de paz para a Faixa de Gaza, um processo que visa ir além do cessar-fogo inicial e avançar para questões estruturais de governança e segurança no território palestino — um marco que tem causado tensão e desconforto consideráveis dentro de Israel.
O que é essa “segunda fase”?
Segundo relatos internacionais e israelenses, o plano norte-americano — formulado originalmente como um pacote de 20 pontos pelo governo Trump — foi dividido em várias etapas: a primeira consistiu em cessar-fogo, troca de reféns e redução das hostilidades. A segunda fase, agora oficialmente anunciada, vai além do fim temporário das lutas e inclui:
› A desmilitarização de Gaza, exigindo que grupos armados renunciem ao uso de violência;
› A formação de um comitê tecnocrático palestino para administrar civicamente a Faixa de Gaza;
› O envolvimento de um “Board of Peace” internacional para supervisionar a transição e reconstrução.
Essa segunda fase supostamente colocou o processo de paz em um plano que passa da simples pausa das hostilidades para uma transição política e administrativa mais profunda dentro de Gaza.
Principais preocupações do governo israelense
1. Discordância com a composição do mecanismo internacional
O anúncio feito pelos Estados Unidos incluiu a formação de um órgão internacional — o chamado Board of Peace — com figuras que Israel considera problematicamente alinhadas com interesses divergentes. A presença de representantes de países como Turquia e Qatar — acusados por Israel de relações com o Hamas — gerou forte objeção do governo de Benjamin Netanyahu, que afirmou que a composição do órgão não foi coordenada com Israel e contraria sua política.
Para muitos no espectro governamental israelense, parece haver um sentimento de prejuízo à soberania de decisões estratégicas que dizem respeito diretamente à segurança nacional de Israel.
2. Dúvidas substanciais sobre a viabilidade do plano
Embora o comunicado estadounidense anuncie o início da segunda fase, líderes israelenses — incluindo o próprio Netanyahu — minimizaram o anúncio, caracterizando-o como um “movimento declarativo” sem garantias concretas de implementação. O primeiro-ministro ressaltou que partes essenciais, como a desmilitarização do Hamas ou avanços no retorno de reféns, ainda não foram concretizadas de fato.
Esse ceticismo interno revela uma linha de pensamento: sem segurança operacional real e sem garantias em campo, a segunda fase corre o risco de ser meramente simbólica.
3. Security first: a desmilitarização é vista como problemática
Não apenas políticos, mas também setores influentes na sociedade e nas Forças de Defesa de Israel argumentam que a fase dois não estabelece mecanismos realistas para desarmar grupos como o Hamas sem comprometer a segurança nacional. A exigência de desmilitarização, enquanto Israel mantém controles militares e patrulhas, levanta o debate sobre quem garante a estabilidade real em Gaza e em sua fronteira.
Além disso, notícias locais apontam que a fase dois não esclareceu detalhes cruciais, como a abertura da passagem de Rafah — uma questão sensível usada como alavanca em negociações e vinculada diretamente à libertação de reféns — o que acentua a frustração em Jerusalém.
Repercussões políticas e diplomáticas em Israel
Polarização política interna
A medida expôs e aprofundou divisões no espectro político israelense: enquanto a ala mais à direita critica qualquer plano que possa enfraquecer o controle de Israel sobre seus próprios interesses de segurança, setores moderados reconhecem a necessidade de uma solução negociada que evite futuros confrontos violentos.
Essa divisão traz impacto direto nos debates sobre:
- A condução das negociações de paz;
- A política interna de segurança;
- A posição de Israel perante seus aliados, especialmente os Estados Unidos.
Relações exteriores: possível desgaste com Washington
Outra dimensão importante é a tensão diplomática entre Israel e os Estados Unidos. Historicamente aliado prioritário de Washington, Israel agora expressa publicamente um dissenso com a forma como a segunda fase foi apresentada — sem consulta prévia e com elementos que Israel entende como desfavoráveis à sua política.
Isso pode gerar debates estratégicos sobre como alinhar política externa sem sacrificar segurança nacional.
Por que isso importa?
Essa controvérsia não é apenas diplomática — ela reflete um ponto crucial: a busca por paz duradoura requer mais do que um anúncio político; demanda confiança, coordenação e mecanismos de implementação claros no terreno.
Israel teme que um processo mal articulado possa:
- Comprometer sua segurança;
- Perpetuar o conflito em outra forma;
- Reduzir sua influência sobre o futuro governança da Faixa de Gaza.
Por outro lado, a comunidade internacional vê nesta segunda fase uma chance de construir estruturas que poderiam mitigar hostilidades e reconstruir uma sociedade devastada pela guerra.
Conclusão
A segunda fase do plano de paz em Gaza, anunciada recentemente pelos Estados Unidos, coloca Israel em um cenário complexo de cálculo político e estratégico. O desconforto governamental expressado publicamente decorre não de um simples desacordo diplomático, mas de uma percepção profunda de risco à segurança nacional e à soberania política.
Israel reconhece a necessidade de estabilidade e normalização na região, mas permanece cautelosa quanto à forma, aos mecanismos e às garantias tangíveis dessa transição. Se a segunda fase realmente avançar, ela deverá superar obstáculos consideráveis — tanto no nível político, quanto no terreno.
Desde Sião, Miguel Nicolaevsky








